quinta-feira, junho 16, 2016

Como orar

Mario Eugenio Saturno

Nesta primeira quarta-feira de junho, o Papa Francisco discorreu sobre a parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18,9-14), em que Jesus nos ensina como ter a atitude certa para rezar e como invocar a misericórdia do Pai.

Os dois protagonistas da parábola sobem ao templo para orar, mas eles agem de modos muito diferentes. O fariseu reza em pé (v. 11) e faz uso de muitas palavras. A sua oração parece, sim, uma oração de agradecimento dirigida a Deus, mas em verdade é uma exposição de seus próprios méritos, com um senso de superioridade em relação aos “outros homens”, descritos como “ladrões, injustos, adúlteros”, como aquele que estava lá, “este publicano” (v. 11). Aquele fariseu reza, na verdade, para si próprio! Em vez de ter diante dos olhos o Senhor, tem um espelho. Embora estando no templo, não sente a necessidade de prostrar-se diante da majestade de Deus.

Ele enumera as boas obras realizadas: é irrepreensível, observante da Lei, além da obrigação, jejua “duas vezes por semana” e paga o dízimo de tudo o que possui. Em suma, mais do que orar, o fariseu congratula-se com a própria observância dos preceitos. No entanto, a sua atitude e as suas palavras estão longe do modo de agir e de falar de Deus, que ama todos os homens e não despreza os pecadores. O contrário do que faz o fariseu. Em suma, o fariseu, que se sente justo, negligencia o mandamento mais importante: o amor a Deus e ao próximo.

Não basta, portanto, perguntar-nos o quanto oramos, devemos também perguntar-nos como oramos, ou melhor, como é o nosso coração: é importante examiná-lo para avaliar os pensamentos, os sentimentos, e erradicar a arrogância e a hipocrisia. Mas, eu pergunto: é possível orar com hipocrisia? Não. Apenas, devemos orar colocando-nos diante de Deus assim como nós somos. Não como o fariseu que orava com arrogância e hipocrisia.

Todos somos vítimas do frenesi do ritmo diário, muitas vezes à mercê dos sentimentos, atordoados, confusos. É necessário aprender a reencontrar o caminho do nosso coração, recuperar o valor da intimidade e do silêncio, porque é lá que Deus nos encontra e nos fala. Somente a partir daí podemos, por sua vez, encontrar os outros e falar com os demais. O fariseu foi ao templo, confiante, mas não se deu conta de ter perdido o caminho do seu coração.

O publicano, ao contrário, apresenta-se no templo com ânimo humilde e contrito: “ficou a distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito” (v. 13). A sua oração é muito curta: “Ó Deus, tende piedade de mim que sou pecador”. Na verdade, os cobradores de impostos – os publicanos – eram considerados pessoas impuras, submissas aos governantes estrangeiros e o povo não gostava deles. A parábola ensina que alguém é justo ou pecador não pela própria condição social, mas pela maneira que se relaciona com Deus e com os irmãos. Os gestos de penitência e as poucas e simples palavras do publicano testemunham a sua consciência sobre a sua mísera condição. A oração dele é essencial, confiante somente de ser um pecador necessitado de piedade.

Se o fariseu não pedia nada porque já tinha tudo, o publicano só podia mendigar a misericórdia de Deus. No fim, precisamente ele, tão desprezado, torna-se um ícone do verdadeiro crente. Jesus conclui a parábola com uma frase: “o publicano foi para casa justificado, porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (v. 14 ).

Mario Eugenio Saturno é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano.